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O ConsultórioJunguiano
Blog/12 de outubro de 2026/Processo

O terapeuta diante do símbolo desconhecido: como sustentar a sessão sem ter todas as respostas

Diante de um símbolo que você não conhece, a segurança não vem de saber tudo sobre símbolos. Vem de ter um caminho para conduzir a análise.

Todo terapeuta que trabalha com sonhos já passou por isso. O paciente conta um sonho com uma imagem que você simplesmente não reconhece. Uma figura estranha, um ritual que não faz sentido, um objeto que parece carregar alguma coisa importante, mas que não lembra nada do que você estudou.

E, junto com a imagem, aparece a autocrítica: “eu deveria ter lido mais”, “eu não conheço esse mito”, “se eu não explicar isso agora, o paciente vai perceber que eu não sei”.

Eu quero conversar sobre esse momento, porque ele diz muito sobre de onde vem a segurança de quem trabalha com sonhos. E, veja só, ela não vem de onde a gente costuma achar.

A armadilha da erudição

Quando aparece o medo de não saber, a tendência é se proteger atrás da teoria. A gente tenta encaixar rapidamente o símbolo num arquétipo conhecido, numa referência mitológica qualquer, para aliviar a própria ansiedade.

O problema é que essa resposta serve mais ao terapeuta do que ao paciente. Ela resolve o desconforto de quem conduz, mas fecha o sonho para quem sonhou. E o paciente costuma perceber a tensão. Em vez de uma escuta curiosa, a sessão ganha um ar de prova: alguém precisa acertar a resposta.

Jung insistiu que um símbolo de sonho não pode ser separado de quem sonha. Ou seja, mesmo que você conhecesse todos os mitos, ainda faltaria a parte mais importante: o que aquela imagem é para aquela pessoa, naquele momento da vida dela. E essa parte nenhum livro traz.

Isso não quer dizer que a teoria seja dispensável. Muito pelo contrário. Mas o lugar dela é outro: ela é o chão que sustenta a sua postura, e não uma parede que você ergue entre você e a experiência do paciente.

Estar perdido e estar investigando

Sustentar o não saber não é ficar passivo, esperando que alguma coisa aconteça. Existe uma diferença grande entre estar perdido e estar investigando.

Quem não tem um caminho fica perdido. Cada sonho parece um recomeço, a condução depende da inspiração do dia, e um símbolo desconhecido trava a sessão.

Quem tem um caminho pode não saber o que a imagem significa e, mesmo assim, saber exatamente o que fazer a seguir. Essa é a diferença que dá segurança.

Um caminho para o símbolo que você não conhece

Não é uma regra rígida, mas uma sequência que ajuda muito nesses momentos.

1. Acolher a estranheza. Vale dizer com tranquilidade que a imagem é mesmo enigmática. Isso tira dos dois a cobrança de um sentido imediato e abre espaço para investigar.

2. Descrever antes de entender. Antes de saber o que a imagem significa, a gente precisa saber como ela aparece. Como era? Que cor, que tamanho, que movimento? Onde ela estava no sonho? O que o paciente sentiu diante dela? Muitas vezes, a descrição detalhada já começa a mostrar alguma coisa.

3. Perguntar ao sonhador. O que essa imagem lembra para você? Você já viu algo parecido? Onde? É a fala do paciente que abre a primeira fresta. E, quando o símbolo é desconhecido para o terapeuta, ela fica ainda mais importante.

4. Situar a imagem no sonho inteiro. Um símbolo não aparece solto. Muitos sonhos se organizam como um pequeno drama: uma exposição, que mostra o lugar e as pessoas; um desenvolvimento, em que a situação se complica; uma virada; e um desfecho, ou a falta dele. Em que momento desse drama a imagem estranha aparece? O que muda depois dela? Às vezes, a função da imagem no sonho diz mais do que qualquer significado isolado.

5. Adiar a amplificação. A pesquisa em livros, mitos e referências culturais tem lugar, e é um lugar importante. Mas pode ficar para depois da sessão, como parte do seu estudo do caso. O que você encontrar pode voltar na sessão seguinte, como hipótese, e não como veredito.

A análise como espiral

Isso leva a uma outra ideia que ajuda a tirar o peso do momento: a análise de um sonho não precisa terminar na mesma sessão. Ela funciona mais como uma espiral do que como uma linha reta.

Um símbolo que hoje parece incompreensível pode ganhar sentido daqui a algumas semanas, quando aparecer de novo, quando outro sonho trouxer uma imagem parecida, ou quando alguma coisa acontecer na vida do paciente. O trabalho é ir voltando, revisitando, acompanhando.

Quando a gente entende isso, a urgência diminui. Não é preciso resolver o sonho hoje. É preciso conduzir bem o pedaço de caminho que cabe nesta sessão.

E o seu medo também é informação

Tem mais uma coisa. O desconforto que você sente diante de um símbolo desconhecido também pode dizer algo, sobre você e sobre a relação com aquele paciente. Por que justamente essa imagem mexeu tanto com você? O que ela despertou?

Não precisa responder na hora. Mas vale anotar depois da sessão. O terapeuta participa do processo que conduz, e perceber o que é seu nesse momento faz parte do trabalho.

Onde isso entra no M.A.P.A.

No Método M.A.P.A., esse caminho é o Processo: a estrutura da análise, do primeiro relato à hipótese, que permite conduzir mesmo quando o símbolo é desconhecido. Ele se apoia no Mapeamento, que vem antes, e se completa com a Aplicação da teoria e com o Autodesenvolvimento de quem conduz.

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Sobre o autor

Daniel Gomes

Psicoterapeuta junguiano, criador d'O Consultório Junguiano e do Programa InSonhos. Conduz a análise dos sonhos na prática clínica e forma profissionais através do Método M.A.P.A. (Mapeamento, Aplicação, Processo e Autodesenvolvimento).

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